O Pequeno Príncipe Preto, por Joyce Lima

A peça ‘O Pequeno Príncipe Preto’, aos meus 31 anos de idade, é uma das apresentações mais lindas e marcantes para mim. Alguns espetáculos (cênicos e de danças) estão no meu coração. Mas, ah… O Pequeno Príncipe, que é preto, não dá para esquecer.

Muitas crianças, coloridas, aguardavam ansiosamente pela apresentação, muitos pretinhos como eu também. Quando a peça inicia, para o meu espanto (hahaha), o Pequeno Príncipe era claro (mais ou menos da minha cor) – e eu pensei: cadê o príncipe negão? Mas, mal sabia eu que esse meu pré julgamento ia ralo abaixo.

O Pequeno Príncipe Preto usa o famoso cachecol vermelho, mas, também usa equeté (chapéu usado por africanos, por ogans e pais de santo do Candomblé). E, para a minha surpresa, quando ele tira o seu chapéu, não é que o Pequeno Príncipe Preto tem cabelo crespo e dread? O Pequeno Príncipe é preto.

Prevendo que assim como eu, outros se surpreenderiam com o seu tom de pele, o Pequeno Príncipe Preto teve a sensibilidade e singeleza de nos mostrar o óbvio: “Eu sou mais claro que você e mais escuro que você, mas eu sou preto. Existe o verde claro e o verde escuro, mas ainda sim ambos não deixam de ser verde.” Dessa forma, o personagem explicava para as crianças (e para mim) o que é colorismo!

Ele também fala sobre o seu sorriso farto – que a todo o momento na peça só passava energia boa, sobre seus lábios carnudos, como adora o seu nariz de batata e ele ama batatas (nessa hora as crianças riem e eu também), sobre os seus olhos castanhos e sobre o seu cabelo crespo. “O céu é o limite para nós.”

É difícil selecionar pontos altos, a peça é toda cheia de pontos altos, porém, logo eu que não sou manteiga derretida, segurei as lágrimas quando o Pequeno Príncipe Preto nos fala sobre a ancestralidade. No seu planeta, antes dele, vieram seus pais, avós e os ancestrais de seus avós. Ele nos mostra quem eram os ancestrais, na imagem projetada estão: Cartola, Abdias do Nascimento, Pixinguinha, Dandara, Dona Ivone Lara, Clementina, Marielle, Mateusa e tantos outros pretos que construíram a nossa história.

No ‘Pequeno Príncipe Preto’ não há a flor, mas há uma enorme Baobá, a árvore da ancestralidade africana. Enquanto que na obra de Saint-Exupéry, a Baobá era inimiga e queria dominar o mundo do Pequeno Príncipe, na versão de Rodrigo França, a Baobá é grande amiga, que precisa ser regada com água. Nem muito, nem pouca. Mas, o suficiente para se manter forte.

A peça é embalada por canções executadas em violoncelo, violão e atabaque, tocadas por musicistas pretos, com seus trajes afros lindos – a direção musical é de um rapaz de DEZENOVE ANOS, o João Vinícius Barbosa. A interpretação lindíssima fica por conta do ator Junior Dantas. ‘O Pequeno Príncipe Preto’ é uma peça para crianças e para adultos. De forma lúdica é frisada a importância da aceitação, do amor, da representatividade e da nossa cultura preta.

Vi uma cultura africana ser inserida de forma natural, nem de perto se assemelha com os demônios que querem nos impor. Atabaques foram entoados. Deuses e deusas africanas foram mencionados, assim como frases em yorubá. No final das contas vi um monte de pretos e pretas, de minha idade, chorando, pela forma singela como a peça nos representa. Nós que temos o coração tão machucado pelo racismo.

É uma benção e de lavar a alma. Isso é também lutar contra o racismo, plantando as sementes Ubuntu por aí, como o Rodrigo tem feito em seus trabalhos. Eu é quem devo dizer Modupé ao Pequeno Príncipe Preto.

Joyce Lima

príncipepreto

www.facebook.com/opequenoprincipepreto

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